“As Trapaceiras”, disponível na Netflix, chegou com a proposta ambiciosa de reinterpretar um clássico da comédia de golpes sob uma nova perspectiva. Estrelado por Anne Hathaway e Rebel Wilson, o longa almejava inverter o gênero da aclamada produção “Dirty Rotten Scoundrels” (Os Safados) e posicionar duas astutas vigaristas no centro de uma disputa milionária, ambientada na pitoresca Riviera Francesa. A ideia, que à primeira vista era promissora e inovadora, infelizmente se desfez na prática. O que se materializou nas telas foi uma comédia carente de ritmo envolvente, sem a química esperada entre suas protagonistas e, o mais preocupante para o gênero, desprovida de um humor eficaz. A tentativa de modernizar e feminizar o conceito acabou em uma execução que falha em entregar tanto a comédia prometida quanto a sagacidade de um bom filme de golpes.
Uma releitura que falha em cativar
A premissa de “As Trapaceiras” parecia ter todos os ingredientes para uma comédia de sucesso. Pegar a fórmula de um filme consagrado como “Dirty Rotten Scoundrels”, onde dois golpistas masculinos competem para enganar uma herdeira, e reimaginar essa dinâmica com duas mulheres, em um cenário luxuoso, soa como um ponto de partida brilhante para uma sátira ou uma comédia perspicaz sobre o poder e a inteligência feminina. No entanto, o filme tropeça logo nos primeiros atos ao não conseguir traduzir essa boa ideia em um roteiro coeso e divertido.
A trama segue Josephine Chesterfield (Anne Hathaway), uma vigarista de elite que opera com sofisticação na Riviera Francesa, e Penny Rust (Rebel Wilson), uma trapaceira de métodos mais brutos e desorganizados que invade seu território. O conflito inicial entre esses estilos distintos — a classe contra a cafonice, a estratégia elaborada contra a improvisação grosseira — deveria ser o combustível para a comédia, gerando situações hilárias e embates verbais afiados. Contudo, o que se observa é uma repetição cansativa de piadas previsíveis e situações que se arrastam, perdendo qualquer chance de impacto cômico. A originalidade do conceito se esvai em uma execução genérica, onde a inteligência dos golpes é rara e a sagacidade dos diálogos é praticamente inexistente. A sensação é de que o potencial intrínseco à rivalidade feminina no mundo das fraudes nunca é plenamente explorado, resultando em um enredo que parece mais uma série de esquetes desconexos do que um filme bem amarrado.
Anne Hathaway em performance desconectada
Um dos pontos mais criticados em “As Trapaceiras” recai sobre a performance de Anne Hathaway. Conhecida por sua versatilidade e por papéis memoráveis em comédias como “O Diário da Princesa” e “O Diabo Veste Prada”, sua Josephine é apresentada com uma rigidez e uma artificialidade que não encontram eco na proposta cômica do filme. A personagem é moldada com um sotaque britânico exagerado e uma postura excessivamente afetada, que, em vez de adicionar humor ou complexidade, apenas distancia o espectador. Falta à Hathaway o timing cômico habitual, a leveza e, principalmente, uma entrega genuína ao tom irreverente que uma comédia de golpes exige.
É como se a atriz estivesse operando em um registro dramático em meio a uma farsa, criando uma desconexão palpável entre sua interpretação e o restante do elenco, especialmente em contraste com a abordagem mais solta de Rebel Wilson. Essa falta de sintonia não apenas prejudica sua própria personagem, tornando-a pouco carismática e, por vezes, irritante, mas também mina a dinâmica crucial que deveria existir entre as duas protagonistas. A esperada faísca da rivalidade se transforma em um embate unilateral, onde a gravidade de uma não combina com a exuberância da outra, resultando em cenas que falham em gerar risadas ou qualquer tipo de engajamento emocional.
Roteiro genérico e oportunidades perdidas
Se a performance de uma das protagonistas é um obstáculo, o roteiro de “As Trapaceiras” é o campo minado que impede qualquer resgate da experiência. Mesmo com os esforços de Rebel Wilson para injetar energia na personagem Penny Rust, o texto não oferece profundidade ou originalidade suficientes para sustentar a narrativa. Penny é exatamente o tipo de personagem que Wilson domina: barulhenta, caricata e com um humor físico que, em outras produções, já provou ser eficaz. Algumas de suas piadas e reações conseguem arrancar um sorriso, mas nem mesmo seu carisma notável consegue compensar a fragilidade de um roteiro que se mostra preguiçoso e previsível.
O contraste entre as personalidades de Josephine e Penny, que deveria ser o motor central da comédia, é pouco explorado de forma criativa. A falta de química entre Anne Hathaway e Rebel Wilson, exacerbada pela rigidez do roteiro, significa que o potencial de embates verbais sagazes ou situações de humor baseadas em suas diferenças é largamente inatingido. Em vez de construir uma tensão cômica crescente ou reviravoltas inteligentes, o filme se contenta com uma série de interações superficiais, onde as personagens parecem mais seguir um manual de “como ser um golpista” do que desenvolver uma relação crível e divertida. A originalidade dos golpes é igualmente falha, com truques que raramente surpreendem ou demonstram a sagacidade que se esperaria de duas “trapaceiras” de alto nível.
Direção sem brilho e elenco coadjuvante subutilizado
A direção de Chris Addison, conhecido por seu trabalho afiado em séries de televisão como “Veep” e “The Thick of It”, surpreende negativamente pela falta de inventividade em “As Trapaceiras”. O filme padece de uma direção burocrática e sem inspiração, que não consegue elevar o material medíocre do roteiro. A ambientação na deslumbrante Riviera Francesa, que poderia oferecer um pano de fundo visualmente rico e glamouroso, é usada de forma genérica, sem que a paisagem contribua significativamente para a atmosfera ou para o humor. A cinematografia é plana e a montagem carece de ritmo, o que é fatal para uma comédia, especialmente uma de golpes.
Adicionalmente, o elenco coadjuvante, que em filmes de comédia e golpes frequentemente adiciona camadas de humor e excentricidade, passa quase despercebido. Os personagens secundários são unidimensionais e não recebem atenção suficiente do roteiro ou da direção para se destacarem, desperdiçando talentos que poderiam ter contribuído para uma experiência mais rica. Tudo em “As Trapaceiras” soa engessado, como se o filme tivesse medo de ousar, de subverter expectativas ou de realmente atualizar o material original de forma significativa. É um exemplo claro de como uma ideia conceitualmente boa não é suficiente para sustentar um longa-metragem quando a execução, desde o roteiro até a direção e as performances, falha em encontrar seu próprio tom e identidade.
O legado de um filme esquecível
Em suma, “As Trapaceiras” emerge como uma comédia que não cumpre suas promessas. A tentativa de reimaginar um clássico com uma roupagem feminina é, em sua essência, válida e pertinente para os tempos atuais. Contudo, o humor falho, a ausência de química entre as protagonistas e uma direção sem brilho condenam o filme a ser uma experiência pouco memorável. Raramente provocando risadas genuínas ou envolvendo o espectador em sua trama de golpes, o longa acaba por desperdiçar o talento de duas atrizes populares em um projeto que carece de identidade própria e de um propósito cômico claro. Para o público que busca uma comédia afiada, com diálogos inteligentes e reviravoltas surpreendentes, ou um bom filme de golpes que realmente entregue tensão e sagacidade, “As Trapaceiras” provavelmente se revelará uma decepção. Há, sem dúvida, opções muito mais consistentes e divertidas disponíveis para explorar nas diversas plataformas de streaming.
Perguntas frequentes sobre As Trapaceiras
Qual é o enredo principal de As Trapaceiras?
“As Trapaceiras” conta a história de Josephine Chesterfield, uma vigarista de elite que opera na Riviera Francesa, e Penny Rust, uma trapaceira de métodos mais desorganizados. Elas entram em conflito quando Penny invade o território de Josephine, levando a uma disputa para ver quem consegue enganar um jovem milionário do setor de tecnologia primeiro.
Quem são as atrizes principais do filme?
As protagonistas do filme são Anne Hathaway, que interpreta Josephine Chesterfield, e Rebel Wilson, que vive Penny Rust.
As Trapaceiras é um remake de qual filme?
Sim, “As Trapaceiras” é um remake com troca de gênero do filme de comédia de 1988, “Dirty Rotten Scoundrels” (Os Safados), estrelado por Steve Martin e Michael Caine.
Vale a pena assistir As Trapaceiras na Netflix?
Para quem busca uma comédia de golpes afiada ou um filme que gere muitas risadas, “As Trapaceiras” pode ser uma experiência decepcionante. Embora a premissa seja interessante, o filme é frequentemente criticado pela falta de humor, ritmo e química entre as protagonistas, além de um roteiro previsível.
Se você busca uma comédia de golpes que realmente entregue risadas e reviravoltas inteligentes, explore outras opções disponíveis nas plataformas de streaming.
Fonte: https://mixdeseries.com.br













