A Imperatriz Leopoldinense, que desfila neste domingo (15) pelo Grupo Especial do carnaval do Rio, apresenta o enredo "Camaleônico", um tributo à trajetória e obra de Ney Matogrosso. O samba-enredo, idealizado pelo carnavalesco Leandro Vieira, incorpora expressões e imagens que remetem a canções consagradas do artista e à sua estética performática e transgressora.
O Conceito do Enredo
Leandro Vieira explicou que o projeto não se trata de uma biografia, mas de uma imersão na obra de Ney Matogrosso. Ele destacou quatro álbuns como pilares conceituais para a escola: "Água do Céu- Pássaro" (1975), "Bandido" (1976), "Feitiço" (1977) e "Pecado" (1978).
O carnavalesco ressaltou que esses discos, lançados após a fase do Secos e Molhados, já consolidavam a performance, a androginia e a potência estética de Ney, elementos que norteiam o conceito de "Camaleônico" como um manifesto estético e político.
Referências na Letra do Samba-Enredo
O samba-enredo da Imperatriz Leopoldinense tece uma narrativa visual e sonora com trechos que evocam momentos e canções marcantes da carreira de Ney Matogrosso:
Homem com H
O verso "Pois, sou Homem com H" cita um dos maiores sucessos da carreira solo de Ney, de 1981. A canção, que se tornou um hino de afirmação e liberdade, dialoga com a temática de quebra de padrões do enredo. O carnavalesco Leandro Vieira detalhou que a ala correspondente apresentará uma mistura de signos do imaginário masculino e feminino, com figurinos que incluem "meia-calça arrastão cor-de-rosa", ressaltando a ambiguidade e a caricatura da masculinidade presente na obra de Ney.
Metamorfose e Instinto
A letra traz "O sangue latino que vira / Vira, vira lobisomem", uma alusão direta às canções "Sangue Latino" e "Vira", ambas da época do grupo Secos & Molhados. Estes trechos abordam a ideia de metamorfose e instinto, elementos que se conectam ao camaleonismo.
Pavão Mysterioso
A imagem do "Pavão de mistérios, rebelde, catiço" faz referência a "Pavão Mysterioso", sucesso popular interpretado por Ney. O pavão simboliza exibicionismo, sedução e teatralidade, elementos marcantes na estética do artista.
Rosa de Hiroshima
Em "A voz que a cálida Rosa deu nome", há uma citação à "Rosa de Hiroshima", poema de Vinicius de Moraes musicado por Gerson Conrad e imortalizado na voz de Ney Matogrosso. A interpretação do cantor é conhecida por sua carga dramática e crítica à violência e destruição.
Mulheres de Atenas
O verso "A força de Athenas que o mau não consome" faz alusão direta à música "Mulheres de Atenas", que associa a figura mitológica à ideia de resistência e poder.
Não Vejo Pecado ao Sul do Equador
O samba referencia "Não Vejo Pecado ao Sul do Equador", canção de Chico Buarque e Ruy Guerra que ganhou projeção nacional na interpretação de Ney durante os anos finais da ditadura militar. A música marcou como um símbolo de liberdade corporal e contestação moral.
Temas de Álbuns
Trechos como "bandido, pecado e feitiço" remetem aos álbuns lançados em 1976, 1977 e 1978, respectivamente, reforçando o universo temático explorado pelo cantor em sua discografia.
A expressão "Pássaro, mulher" recupera a ideia de hibridismo e animalidade presente tanto na estética do artista quanto no álbum "Água do céu- Pássaro", de 1975.
Poema e Afronta ao Sistema
O verso "Eu sou o poema que afronta o sistema" funciona como uma síntese conceitual do enredo, dialogando com a canção "Poema". Ele destaca o papel de Ney Matogrosso como um artista que desafiou censura, conservadorismo e padrões de gênero ao longo de cinco décadas de carreira.
Fonte: https://g1.globo.com













