A cigarrinha-do-milho, principal desafio sanitário dos produtores brasileiros, gera um prejuízo anual estimado em R$ 33,6 bilhões (US$ 6,5 bilhões, conforme câmbio atual) ao agronegócio nacional. Entre 2020 e 2024, as perdas acumuladas superaram R$ 134 bilhões. Os dados são de um estudo divulgado nesta terça-feira (7) pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), vinculada ao Ministério da Agricultura e Pecuária.
O impacto da praga reflete uma perda média de produção de 22,7% no período analisado, o equivalente a cerca de 31,8 milhões de toneladas de milho por ano. Esse volume representa aproximadamente 2 bilhões de sacas de 60 quilos que deixaram de ser produzidas. Além da redução na colheita, os custos com a aplicação de inseticidas para o controle do *Dalbulus maidis*, nome científico do inseto, registraram um aumento de 19% no mesmo período, excedendo US$ 9 (R$ 46) por hectare.
Detalhes do Estudo
O levantamento da Embrapa foi publicado na edição de abril da revista científica internacional *Crop Protection*. A pesquisa utilizou dados da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) desde 1976 para calcular os danos dos enfezamentos do milho, doenças transmitidas pela cigarrinha. Colaboraram no estudo especialistas da Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina (Epagri) e da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA).
A Embrapa classifica a cigarrinha como o “maior desafio sanitário do sistema produtivo de milho no Brasil das últimas décadas”. O estudo foi realizado em 34 municípios que representam as principais regiões produtoras do país. Segundo Charles Oliveira, pesquisador da Embrapa Cerrados, a cigarrinha ou os enfezamentos foram apontados como fator central para a queda de produtividade em cerca de 80% das localidades avaliadas.
A Praga e Seus Efeitos
A cigarrinha-do-milho adquire patógenos ao se alimentar em plantas infectadas, transmitindo-os em seguida para as sadias. As doenças causadas, conhecidas como enfezamentos (pálido e vermelho), alteram a coloração da planta, provocam o aparecimento de estrias e afetam drasticamente a produção de grãos. Não existe tratamento preventivo contra o enfezamento, o que pode levar à perda total de lavouras.
A doença é conhecida desde a década de 1970, mas surtos epidêmicos tornaram-se mais frequentes a partir de 2015. A expansão da safrinha (segunda safra de milho) e o cultivo contínuo ao longo do ano criaram um ambiente favorável para a sobrevivência e proliferação da cigarrinha e dos microrganismos que ela transmite.
Impacto Econômico e Recomendações
O Brasil, terceiro maior produtor e um dos principais exportadores de milho do mundo, projeta uma produção de 138,4 milhões de toneladas para a safra 2025/2026, com um valor estimado em US$ 30 bilhões. A praga, segundo Tiago Pereira, assessor técnico da CNA, gera “perdas que impactam diretamente a renda do produtor, a estabilidade produtiva e a competitividade do país”.
Maria Cristina Canale, pesquisadora da Epagri, ressalta que os danos ultrapassam os limites das fazendas. “Como o milho é base para a produção de proteína animal (aves, suínos e leite) e biocombustíveis, as quebras de safra elevam os preços para o consumidor e afetam a balança comercial brasileira”, explica. Estudos como este são importantes para orientar a destinação de recursos financeiros, definir janelas de plantio e planejar estratégias de mitigação.
Diante da alta capacidade de reprodução e dispersão da cigarrinha, e da ausência de tratamento preventivo, a Embrapa oferece uma série de recomendações para minimizar o alcance da praga, incluindo a eliminação do milho tiguera (plantas voluntárias). Uma cartilha online está disponível para orientar os agricultores.













